O investigador José Carlos Mota traz-nos uma boa notícia: os portugueses não têm nenhum problema no “gene da participação”.
No seu recente ensaio “A Participação Cívica em Portugal” explica que nos envolvemos pouco em iniciativas coletivas, cívicas, associativas ou de voluntariado, não por sermos individualistas, mas por estas iniciativas não serem apelativas e por termos um sistema de governação muito centralizado e distante. O José, como eu, é um megafone que adora pessoas e dedica-se a dar-lhes voz. Encontrei-o em agosto nas Festas de São Bartolomeu do Mar, a tirar fotografias no meio das ondas. Ele sabe que para perder a gaguez (cívica) é preciso mais do que ciência ou sorte, é preciso fé.

Durante mais de 20 anos dediquei-me por inteiro a promover processos participativos em mais de 60 comunidades, em Portugal e fora dele. Organizei bem mais de 100 reuniões participativas, em aldeias escondidas nas serras do Vale do Minho ou em Cascais, para promover o debate sobre o futuro das suas comunidades. Depois de todos estes encontros, sem exceção, senti-me de “alma cheia”. As pessoas adoram calçar os sapatos dos políticos e contribuir para o bem comum com as suas propostas. E fazem-no excecionalmente bem: nada bate a inteligência coletiva.
Infelizmente, com o passar dos anos, fui acreditando cada vez mais nos cidadãos, mas menos nos políticos (carreiristas). Os nossos governantes têm um medo crescente do poder das pessoas e não estão focados na coisa pública: hoje em dia a participação é maioritariamente um exercício de “social washing”, para criar a ilusão de inclusão, cumprir uma legalidade ou manietar consciências. Não admira que as pessoas se sintam frustradas com estes fogachos de cidadania inconsequente.
Enfim, como é Natal, vamos a uma história feliz. Há muitos, muitos anos atrás, estávamos nós na Serra da Estrela a promover a participação pública, na forma da Agenda 21 de Seia, promovida pelo Município. Além dos fóruns participativos, criamos um mercado de talentos locais e um concurso de ideias. No dia da votação decisiva chegou uma camioneta cheia de gente da pequena aldeia de Cabeça. O seu projeto, criar uma “aldeia de Natal” genuína, com o envolvimento de todos, para colocar Cabeça no mapa e combater a desertificação, ganhou o modesto prémio de 5.000 euros. Foi poucomas o suficiente para dar o pontapé de partida para uma iniciativa única.
Fonte: reportagem Público “De Cabeça erguida para um Natal à moda da serra”
Atualmente Cabeça Aldeia Natal é um evento que já vai na 13.ª edição e anualmente deslumbra os milhares de visitantes com as suas casas de xisto decoradas com elementos naturais, a sua autenticidade e, acima de tudo, a oportunidade de conhecer gente boa e os seus usos e costumes tradicionais. Vale mesmo a pena visitar (até 1 de janeiro), nem que seja para reforçar a fé na comunidade.
Desejo a todos um Natal tão genuíno, generoso, participativo, mágico e ecológico como o de Cabeça!




Fonte: reportagem Público “
