O que é que um fascista tem a ver com o clima? Assim de repente, parece uma associação que não faz sentido. Lamentavelmente faz mesmo. Vamos ver porquê.
As alterações climáticas são um fenómeno inegável, reflexo da nossa sociedade industrial de consumo e que coloca em causa a sobrevivência humana e de muitas espécies neste planeta. Trazem grandes desafios para o Entre Douro e Minho, a começar pelo impacto nos recursos hídricos, nas zonas costeiras e nos fogos florestais, com aumento da frequência e intensidade de fenómenos extremos (fortes episódios de vento, ondas de calor e frio, secas e cheias). Enfrentar o desafio implica uma mudança radical no sistema energético, no ordenamento do território, nas práticas agrícolas e nos estilos de vida.
Por sua vez, ao nível da governança, temos assistido nas últimas décadas ao velho ciclo de crises (sociais, ambientais, económicas), seguidas de respostas políticas insuficientes e desajustadas, abrindo caminho para populismos demagógicos que dizem que vão limpar tudo, trazendo na realidade um aumento do autoritarismo e da polarização, que nos leva para ditaduras e guerras. Infelizmente este ciclo tem tendência para se repetir ao longo da história, sendo que desta vez há um problema maior.
Com a globalização, a destruição pode ser ao nível planetário.
As alterações climáticas reforçam a deriva fascista porque geram grandes fluxos migratórios de pessoas provenientes dos locais mais afetados. O caso do Bangladesh é gritante, com uma enormíssima vulnerabilidade face à subida do nível do mar e ao impacto de ciclones e tempestades.
Por uma questão moral deveríamos ser os primeiros a acolher refugiados climáticos e não os usar como bodes expiatórios da nossa incapacidade de gerir o país.
Por outro lado, enfrentar a crise climática implica reduzir drasticamente a utilização de combustíveis fósseis, colocando em causa os interesses económicos instalados, que lucram com milhões de milhões de subsídios financiados pelos contribuintes.
Por isso não interessa ouvir as pessoas que reclamam mais ação climática e mais justiça social, nem interessa o multilateralismo e a cooperação internacional. O lobby fóssil tem por isso financiado massivamente campanhas de negacionismo climático e apoio aos movimentos nacionalistas e autoritários. São já muitos os casos documentados.

Exemplos reais da ligação entre indústria fóssil, negacionismo e políticas extremistas podem ser encontrados na página da DeSmog, uma plataforma de jornalismo independente
Finalmente, com o avolumar das crises, e de forma natural, as pessoas ficam com medo do futuro e sentem uma necessidade instintiva de mais autoridade para “arrumar a casa”. Por isso de repente um qualquer Almirante nos parece uma boa solução para navegar os mares turbulentos que enfrentamos. Por isso Gouveia e Melo é financiado por Mário Ferreira, o Elon Musk português, interessado em dominar o Rio Douro ou as minas de lítio em Boticas, controlando os órgãos de comunicação social pelo caminho.
Tendências sebastiânicas que nos conduzem para guerras inglórias.
Curiosamente, o único candidato presidencial que ouvi falar da relação entre alterações climáticas e fascismo foi o Candidato Vieira. Com o seu jeito muito próprio, faz lembrar os antigos bobos da corte que eram os únicos que tinham coragem de proclamar as verdades inconvenientes. Candidato que eu desapoio veementemente.
Em conclusão, enfrentar a crise climática começa por ser defender a nossa democracia contra as derivas totalitárias.




