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Opinião

Lembra-se do seu Nokia?

Ricardo Rodrigues Gomes parabola perspetiva
5 de Fevereiro de 2026 15:59
Ricardo Rodrigues Gomes
9 meses atrás
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5 minuto(s) de leitura
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Ricardo Rodrigues Gomes - Engenheiro e Gestor
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No início dos anos 2000, a Nokia era um símbolo quase absoluto de liderança global.

O meu antigo 8210 — leve, resistente e com uma autonomia que hoje parece utópica — era apenas um entre centenas de milhões de telemóveis que consolidavam, de forma quase natural, a supremacia da marca finlandesa. A empresa controlava mais de um terço do mercado mundial e era frequentemente citada como exemplo de eficiência industrial, rigor de engenharia e excelência operacional. Mas, como Peter Drucker advertiu, “a maior ameaça em tempos de turbulência não é a turbulência — é agir com a lógica de ontem”. Poucas histórias ilustram tão claramente esta ideia como a da Nokia, cuja liderança se revelou menos duradoura do que, na altura, parecia.

Em rigor, a queda da empresa não resultou de um erro isolado, mas de um conjunto de decisões que expôs fragilidades profundas na capacidade de antecipar transformações estruturais. A Nokia não falhou por falta de recursos, talento ou escala; falhou por não conseguir alinhar a sua estratégia com a nova lógica competitiva que, entretanto, emergia. O momento decisivo coincidiu com a transição para os smartphones. Enquanto o setor avançava rapidamente para interfaces táteis, ecossistemas de aplicações e integração digital, a Nokia permaneceu firmemente ancorada no Symbian, um sistema operativo que já não oferecia a escalabilidade necessária para funcionalidades mais complexas, nem ciclos de desenvolvimento compatíveis com a velocidade do mercado. A empresa conhecia estas limitações — vários documentos internos demonstram —, mas faltou-lhe determinação para romper com o legado e apostar numa plataforma verdadeiramente nova.

Neste sentido, a chegada do iPhone em 2007 e a expansão acelerada do Android alteraram de forma irreversível o panorama competitivo. A vantagem deixou de residir no hardware e passou a depender do software, dos ecossistemas e da capacidade de gerar valor contínuo através de serviços. Ou seja, a Nokia não perdeu apenas quota de mercado; perdeu relevância tecnológica. E a parceria tardia com a Microsoft, embora ambiciosa, acabou por restringir ainda mais a sua margem de manobra. Na verdade, o Windows Phone nunca atingiu massa crítica suficiente para competir com os ecossistemas dominantes, deixando a empresa dependente de uma aposta que não controlava.

A literatura de gestão é consistente ao demonstrar que empresas líderes tendem a desenvolver culturas que privilegiam a eficiência em detrimento da experimentação. A Nokia não escapou a essa tendência. A sua cultura, frequentemente descrita como hierarquizada e avessa ao risco, era eficaz a aperfeiçoar produtos existentes, mas lenta a reinventar-se. E, num setor onde a velocidade constitui uma vantagem competitiva determinante, essa lentidão tornou-se fatal. A empresa continuou a otimizar quando o mercado exigia, de forma inequívoca, reinvenção.

Hoje, a Nokia permanece sobretudo como caso de estudo — não por nostalgia, mas pela atualidade das suas lições. Num contexto marcado pela inteligência artificial, automação e ciclos tecnológicos cada vez mais curtos, a história repete-se com novos protagonistas. A liderança é transitória e exige modernização contínua; a disrupção raramente avisa; a cultura organizacional pode ser o maior acelerador ou o maior entrave à inovação; e a agilidade estratégica é tão crítica quanto a excelência operacional.

Confesso que o meu antigo Nokia 8210 continua guardado numa gaveta. Conserva apenas valor simbólico e também, de alguma forma, a recordação de que, no mundo empresarial, a capacidade de adaptação é tão determinante quanto a qualidade técnica. Nenhuma empresa, por mais dominante que seja, está imune a esta realidade cruel.

E talvez esta seja, em última análise, a verdadeira lição: no século XXI, a vantagem competitiva não deriva do que uma organização já conquistou, mas daquilo que é capaz de desaprender, reconstruir e antecipar. Desengane-se quem pensa que a história da Nokia é apenas sobre tecnologia.

Na verdade, é sobre os perigos que derivam da incapacidade de mudar quando o mundo está a mudar. E esse é um risco que nenhuma empresa — de qualquer setor — se pode permitir ignorar.

ETIQUETAS:artigodestaquenokiaopiniãoRicardo Rodrigues Gomes

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