No dia 5 de maio de 2025, a Presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, apresentou na Universidade Sorbonne, em Paris, a iniciativa “Choose Europe for Science”, um marco simbólico para a União Europeia (UE) face aos desafios globais da ciência.
O objetivo é reforçar a Europa como território de excelência no conhecimento e na atração de talentos, com 1,25 mil milhões de euros destinados, em 2025, a novas oportunidades de financiamento para cientistas e investigadores.
A CE pretende promover a colaboração internacional, ligar a ciência à sociedade e apoiar os jovens investigadores. Para isso serão reforçados os apoios à formação e ao recrutamento de doutorandos, incentivando a cooperação entre academia, empresas e administrações públicas. O financiamento incluirá o reforço dos programas doutorais, da mobilidade e do regresso de investigadores após experiência internacional.
A iniciativa assenta em quatro pilares:
- (i) uma proposta de Lei sobre o Espaço Europeu da Investigação, para proteger juridicamente a liberdade científica;
- (ii) um pacote financeiro de 500 milhões de euros (2025-2027) para o projeto-piloto “Choose Europe for Science”, com uma “superbolsa” de sete anos do Conselho Europeu de Investigação e duplicação dos apoios à relocalização de investigadores, incluindo um projeto-piloto Marie Skłodowska-Curie para jovens cientistas;
- (iii) uma Lei Europeia da Inovação e a Estratégia para Start-ups e Scale-Ups, destinadas a remover barreiras à inovação e facilitar o acesso a capital de risco;
- (iv) a ligação direta entre investigadores e centros de investigação, simplificando os processos de entrada na UE.
- O contexto é favorável: em maio de 2025, a administração norte-americana, liderada por Donald Trump, anunciou cortes drásticos no financiamento científico e restrições à entrada de investigadores estrangeiros, fragilizando a autonomia académica. A Europa tem assim uma oportunidade singular para se afirmar como destino alternativo, mas precisa agir de forma proativa, corrigindo fatores estruturais que alimentam a “fuga de cérebros”. O estudo MORE4, encomendado pela CE, fornece um retrato da mobilidade científica e caminhos para reforçar a atratividade europeia. O desafio passa essencialmente pela falta de financiamento estável, condições laborais adequadas e carreiras sustentáveis. O prestígio de outros territórios, como os EUA ou Reino Unido, resulta da sua autonomia científica e da ligação entre a academia e o setor privado, um modelo que a Europa deve fortalecer.
A UE é um dos maiores investidores públicos em Investigação e Desenvolvimento (I&D), com 93,5 mil milhões de euros (2021-2027) através do Horizonte Europa. Verificam-se, contudo, diversos entraves: burocracia, fragmentação regulatória, barreiras à mobilidade e desconhecimento dos instrumentos de apoio.
O investimento privado ainda é insuficiente e a cooperação entre academia e empresas carece de dinamismo.
A implementação da Choose Europe for Science pode marcar uma viragem na forma como a Europa cria e valoriza o seu talento científico. Exige simplificação, digitalização e democratização do acesso ao financiamento, garantindo igualdade de oportunidades entre regiões. É também necessário tornar mais transparente o modelo de carreiras académicas, baseando-o em mérito e qualidade, e assegurar que a futura Lei do Espaço Europeu da Investigação salvaguarde a liberdade e a excelência académica.
O sucesso dependerá do envolvimento dos Estados-Membros, cujo alinhamento com as prioridades europeias é essencial para reduzir assimetrias e consolidar a liderança da UE em I&D. São os governos nacionais que detêm as chaves das condições de trabalho, regimes fiscais e reconhecimento de qualificações. Sem coordenação entre níveis de governação, a promessa de uma Europa para a ciência ficará incompleta.
Para Portugal, esta é uma oportunidade estratégica para fixar talentos formados no país, modernizar a academia e reforçar pontes entre universidades, empresas e investidores. Criar condições atrativas e oportunidades financeiras é crucial para reter investigadores e captar novos quadros, aumentando a produtividade, a inovação e o desenvolvimento económico.
Em última análise, a Choose Europe for Science surge num momento crítico, mas promissor. A retração dos EUA cria uma janela de oportunidade que a Europa deve aproveitar, reforçando a confiança da comunidade científica e construindo um ecossistema que nutra, valorize e atraia talento. Pedir aos cientistas que escolham a Europa é apenas metade da equação; a outra metade é garantir que a Europa oferece as condições para que permaneçam, inovem e construam o futuro científico do continente.




