A maçonaria voltou a ocupar o centro do debate público durante os recentes debates presidenciais em Portugal, no contexto das eleições de 2026, surgindo como um dos temas mais polémicos e sensíveis entre os candidatos.
No debate conjunto das rádios — Observador, Renascença, TSF e Antena 1 — realizado no início de janeiro de 2026, os oito candidatos presentes, entre os quais Luís Marques Mendes, André Ventura, António José Seguro, João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo, mostraram uma unanimidade rara: todos negaram qualquer ligação à maçonaria.
Foi um dos poucos momentos de consenso absoluto, a par da questão da limitação de mandatos presidenciais.
Contudo, esse consenso não impediu o surgimento de trocas de acusações nos confrontos diretos. Em dezembro de 2025, o almirante Henrique Gouveia e Melo afirmou publicamente que “há maçons candidatos às presidenciais”, lançando suspeitas sobre adversários, mas recusando-se a identificar nomes: “Não sou denunciante”, declarou.
A resposta não tardou. João Cotrim de Figueiredo recordou que, em janeiro de 2025, um grupo de ex-dirigentes da maçonaria regular criou o “Movimento de Apoio Almirante” à Presidência (MAAP), envolvendo figuras como José Manuel Anes, antigo grão-mestre. Cotrim questionou o interesse e a precocidade desse apoio, ao que Gouveia e Melo respondeu de forma categórica: “Eu não sou maçon”.
Outros candidatos, como António José Seguro, também rejeitaram qualquer ligação à maçonaria, apesar das insinuações que foram sendo lançadas ao longo da campanha.
Estes episódios demonstram como a maçonaria continua a ser associada, no imaginário coletivo português, a redes de influência, poder e secretismo — alimentando suspeitas e polémicas, mesmo quando todos os protagonistas negam publicamente qualquer envolvimento.
Mas afinal, o que é a maçonaria?
A maçonaria — ou freemasonry — é uma organização fraternal secular com origem nas guildas medievais de pedreiros que, a partir do século XIII, construíam catedrais na Europa.
No século XVIII, evoluiu para uma sociedade de natureza filosófica, simbólica e discreta, aberta a homens — e, em algumas obediências mais recentes, também a mulheres — que acreditam num Ser Supremo, sem impor uma religião específica.
De forma simplificada, a maçonaria define-se como uma instituição:
Filosófica, ao promover a reflexão sobre ética, moral, virtudes e aperfeiçoamento pessoal;
Filantrópica, através da prática da caridade e do apoio mútuo;
Educativa, incentivando o estudo, a tolerância e o progresso humano;
Progressista, defendendo valores como a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Os membros organizam-se em lojas, onde realizam rituais simbólicos inspirados nas ferramentas dos antigos pedreiros — como o esquadro, o compasso ou o nível — usadas como metáforas para ensinar lições morais. O sigilo em torno dos rituais e dos sinais de reconhecimento contribui para a proliferação de mitos e teorias da conspiração, apesar de a maioria das obediências proibir expressamente a discussão de política ou religião nas reuniões.
A maçonaria em Portugal
Em Portugal, existem várias obediências, entre as quais se destacam: Grande Oriente Lusitano, a mais antiga, de caráter liberal e adogmático, que aprovou em 2025 a admissão de mulheres; Grande Loja Legal de Portugal, de orientação regular e tradicional, que exige a crença num Ser Supremo e admite apenas homens; Grande Loja Simbólica de Portugal, entre outras.
A maçonaria portuguesa conta com milhares de membros e tem uma influência histórica relevante — muitos dos republicanos do início do século XX eram maçons. Atualmente, atua de forma mais discreta, centrando-se sobretudo na filantropia, na defesa dos direitos humanos e no aperfeiçoamento moral dos seus membros.
Em suma, a maçonaria não é uma religião, nem um partido político, nem uma seita. É uma fraternidade discreta que utiliza símbolos e rituais para promover valores humanistas. Ainda assim, o mistério que a envolve continua a despertar curiosidade, suspeição e polémica — como ficou bem patente nos debates presidenciais de 2026.




