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e24 > Notícias > Opinião > Mas estamos a ficar todos burros? Porque o Projeto de Lei das Redes Sociais não pode passar em democracia
Opinião

Mas estamos a ficar todos burros? Porque o Projeto de Lei das Redes Sociais não pode passar em democracia

Felipe Damasceno
14 de Fevereiro de 2026 03:30
Felipe Damasceno
5 meses atrás
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4 minuto(s) de leitura
25 de abril guerra sanchez nato portugal irao po presidente antonio jose seguro pacote laboral venezuela trump maduro 25 de novembro IVA viana Genocídio Felipe damasceno nigeria
Felipe Damasceno membro do PSD de Viana do Castelo
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Há momentos na história política em que a intenção parece tão nobre que quase nos impede de pensar com rigor.

O Projeto de Lei n.º 142/XVI/1.ª é um desses momentos. Proteger crianças no ambiente digital é uma causa justa, urgente e inadiável. Ninguém sério discute isso. Mas a história das democracias ensina-nos algo essencial: é precisamente em nome das melhores intenções que se constroem os mecanismos mais perigosos.

A pergunta não é se devemos proteger os menores. A pergunta é a que custo e por que meios.

A proposta aponta para a obrigatoriedade de validação de identidade através da Chave Móvel Digital ou mecanismos estatais para acesso a redes sociais. Traduzido em termos simples: comunicar online deixaria de ser um exercício de liberdade e passaria a ser uma permissão concedida pelo Estado. O anonimato legítimo — aquele que protege denunciantes, opositores políticos, vítimas de violência, cidadãos comuns que apenas desejam não expor a sua identidade — desaparece.

Não se trata de alarmismo. Trata-se de arquitetura institucional. Quando o Estado se posiciona como guardião da identidade digital necessária para participar no espaço público, altera-se a natureza do contrato social. A liberdade deixa de ser um ponto de partida e passa a ser uma concessão.

O Artigo 12.º é ainda mais inquietante. A previsão de fiscalização automática de conteúdos “antes de serem enviados” implica, na prática, a monitorização preventiva de comunicações. Isto não é um detalhe técnico: é um choque frontal com a encriptação de ponta-a-ponta — um dos pilares da segurança digital contemporânea, essencial não apenas para a privacidade individual, mas também para a proteção de jornalistas, advogados, magistrados, empresas estratégicas e do próprio Estado.

Do ponto de vista jurídico, o problema é cristalino:

•⁠ ⁠Onde está o princípio da proporcionalidade constitucional?
•⁠ ⁠Como se compatibiliza esta solução com o Digital Services Act, que proíbe obrigações gerais de vigilância?
•⁠ ⁠Desde quando a prevenção abstrata legitima a fiscalização universal?

Não estamos perante uma simples medida administrativa. Estamos perante a possibilidade de institucionalizar uma infraestrutura de vigilância permanente.

Mais grave: esta proposta revela uma visão tecnicamente pobre do problema. O mundo não está parado. Existem soluções criptográficas robustas: como as Zero-Knowledge Proofs, que permitem validar idade sem revelar identidade. É possível provar que alguém tem mais de 16 anos sem expor nome, morada ou data de nascimento. É possível proteger menores sem destruir a privacidade de adultos.

A democracia não se mede apenas pelas eleições. Mede-se pela forma como reage ao medo. Mede-se pela capacidade de proteger os vulneráveis sem transformar todos os cidadãos em suspeitos permanentes.

Proteger crianças é um dever indeclinável. Mas vigiar preventivamente toda a população é uma ruptura civilizacional. Uma democracia forte não abdica da liberdade para simular segurança. Não transforma exceções em regra. Não aceita que o espaço digital se converta num território condicionado por autorização estatal prévia.

Se este projeto avançar na forma atual, não estaremos a reforçar a democracia. Estaremos a fragilizá-la estruturalmente.

A defesa dos menores é essencial. Mas não pode ser o cavalo de Tróia que normaliza a vigilância como condição para participar na vida pública.

A questão mantém-se e exige resposta lúcida: estamos realmente a proteger as crianças, ou estamos a inaugurar uma nova era de big brother digital?

ETIQUETAS:destaquefelipe dasmascenomenoresprojeto de leiredes sociais

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