Vamos começar por arrumar a casa e dizer o óbvio, para que não restem dúvidas: o 25 de Abril foi um marco absolutamente vital.
Graças a Deus e à coragem de quem o fez, o Estado Novo caiu. Libertámo-nos de uma ditadura bafienta para respirar o ar de um país europeu. Temos liberdade de expressão, de imprensa, de ir e vir. Ponto final.
Mas agora que os aplausos da efeméride acalmaram, é hora de olhar para o espelho sem palas ideológicas e dar o chapadão de realidade que o cinismo de grande parte da esquerda portuguesa tenta, a todo o custo, evitar.
A verdade é que a liberdade conquistada em 1974 foi sequestrada para construir um paradigma que hoje funciona como uma âncora de chumbo. Em vez de usarmos a liberdade para evoluir, criámos uma nova casta de vigilantes do pensamento. E a hipocrisia desta fação é ensurdecedora.
A Esquizofrenia Ideológica: O 25 de Novembro e a China
Vejamos os “defensores supremos” da liberdade. São os mesmos que gritam a plenos pulmões no 25 de Abril, mas sofrem de amnésia seletiva (ou azia crónica) quando chega o 25 de Novembro — a data que efetivamente impediu Portugal de cair numa ditadura comunista e garantiu a democracia pluralista.
A dissonância cognitiva não se fica por aqui. Esta mesma elite intelectual que se arroga o monopólio da moralidade democrática é a primeira a desdobrar-se em justificações para defender ou tolerar a maior ditadura do planeta (a China), enquanto diaboliza histericamente a maior democracia do mundo (os EUA). É uma fraude intelectual. Gostam de liberdade, sim, mas apenas daquela que cabe na sua cartilha.
O Sequestro das Instituições
Onde moram estes bloqueios? Estão confortavelmente instalados em redações de jornais, cátedras de universidades e conselhos executivos de escolas. Agarraram-se ao status quo com unhas e dentes e transformaram-se nos grandes conservadores do século XXI. Para eles, o país não pode avançar um milímetro se esse avanço não for carimbado pelo comité central do pensamento de esquerda. Exigem um Estado mastodôntico, fogem da accountability como o diabo da cruz e abominam o conceito de liberdade individual e responsabilidade pessoal.
O Cemitério Laboral e a Democratização da Pobreza
Mas o verdadeiro crime deste imobilismo crónico sente-se no bolso de quem trabalha. Portugal tem um dos mercados laborais mais rígidos e regulados de toda a OCDE, senão mesmo o mais inflexível. E qual é o resultado dessa “proteção” asfixiante?
O resultado é um país sem capacidade de escalar. É um mercado de trabalho onde o elevador social tem os cabos cortados. A ironia macabra do sistema laboral desenhado pela esquerda é que, na ânsia de “proteger” o trabalhador, o condenaram à mediocridade perpétua: o salário médio está cada vez mais esmagado e colado ao salário mínimo. Ao proibir a economia de respirar, democratizou-se a pobreza em vez de se criar riqueza.
A “Estabilidade” da Fuga
Temos de rasgar este medo reverencial de reformar. A tão proclamada “estabilidade” que os defensores deste sistema vendem é, na verdade, a estabilização da nossa mediocridade. É a paz dos cemitérios económicos.
Enquanto continuarmos a recusar uma verdadeira reforma laboral que traga dinamismo ao país e atraia investimento, o nosso maior produto de exportação continuará a ser o talento jovem. As empresas mudam de sede, os capitais fogem, e os nossos filhos emigram para países onde o mérito paga contas e a flexibilidade cria oportunidades.
O 25 de Abril deu-nos a liberdade para escolher o nosso caminho. Já é altura de usarmos essa mesma liberdade para nos livrarmos das amarras de quem quer que continuemos todos iguais, desde que sejamos todos pobres.



