Todos os anos, quando chega o verão, Portugal prepara-se para enfrentar a tragédia repetida dos incêndios florestais.
Mas há um dado curioso — e perturbador — que parece passar despercebido ao grande público: em anos de eleições autárquicas, a época de incêndios tende a ser mais dura. Não será coincidência.
Em 2025, ano de eleições autárquicas, estima-se que Portugal enfrenta a sua pior temporada de incêndios desde 2006. Segundo dados divulgados, o país contabiliza cerca de 275 000 hectares queimados, representando aproximadamente 60 % de toda a área ardida na União Europeia até ao momento.
Em 2017, igualmente ano de eleições, registaram-se cerca de 540 000 hectares queimados, com 117 mortes, sendo o incêndio de Pedrogão inapagável da memória, consolidando-se como uma das piores temporadas de incêndios na Europa·
Os dados do EFFIS confirmam que, nesse ano, Portugal foi o país da UE com mais área ardida
A explicação, infelizmente, é simples. Grande parte da prevenção contra os fogos depende da limpeza de terrenos privados e do cumprimento das faixas de segurança. Ora, quem deve fiscalizar e aplicar coimas é, em primeira linha, a autarquia. Porém, em contexto eleitoral, muitos presidentes de câmara e juntas de freguesia optam por abrandar a pressão sobre os proprietários.
Afinal, ninguém quer arriscar perder votos por ser “o chato” que andou a multar vizinhos em plena campanha.
Este “resfriar” de avisos e notificações, que deveria ser apenas uma suspeita, torna-se visível na prática: menos autuações, menos fiscalizações e, consequentemente, mais hectares de mato por limpar. A política local transforma-se, assim, num combustível invisível dos incêndios.
Este ciclo perverso mostra como a lógica eleitoral imediatista pode comprometer a segurança de todos. Se os autarcas fossem verdadeiramente responsabilizados pelos danos que resultam da falta de prevenção, talvez encarassem o tema com a seriedade necessária. Mas, no atual modelo, o cálculo político sobrepõe-se ao interesse coletivo: ganhar as eleições hoje, mesmo que isso signifique arder amanhã.
Há teorias para todos os gostos quando se tenta explicar porque é que certos anos de incêndios em Portugal são tão devastadores: desde as alterações climáticas às práticas agrícolas, passando pelo abandono rural.
Mas a teoria que relaciona os picos de fogos com os anos de eleições autárquicas é particularmente preocupante. Se for verdade que o receio de perder votos leva muitas autarquias a fechar os olhos à fiscalização e às coimas pela falta de limpeza dos terrenos, então não estamos apenas perante uma falha de gestão — estamos perante uma perversão da própria democracia local, onde a proteção de vidas humanas e do território é sacrificada em nome de cálculos eleitorais de curto prazo.
Portugal precisa de romper com esta cultura.
A prevenção não pode depender do calendário eleitoral, nem da coragem (ou cobardia) de quem ocupa os cargos locais. É urgente transferir para entidades independentes a fiscalização das limpezas, ou pelo menos garantir que o processo é blindado contra interferências políticas. Só assim se evita que a democracia autárquica se transforme, involuntariamente, numa fábrica de combustível para as tragédias do verão.
Enquanto nada mudar, haverá sempre um dado certo: em anos de eleições, arde mais. E não é por azar.




