A Medicina do Trabalho em Portugal ganha uma nova estrutura nacional — e chega com críticas diretas ao sistema.
Foi oficialmente criada a ANaMeT – Associação Nacional dos Médicos de Medicina do Trabalho, que pretende reforçar o papel desta especialidade e denunciar aquilo que considera ser um cumprimento desigual da lei, sobretudo por parte do próprio Estado.
A associação realizou a sua primeira Assembleia Geral a 14 de março, em Vila Nova de Gaia, e surge com um objetivo claro: colocar a Medicina do Trabalho no centro das políticas de saúde e da realidade laboral em Portugal.
“O grande objetivo é que cada vez mais portugueses tenham acesso a uma medicina do trabalho de qualidade”, afirmou Mário Freitas, presidente da direção, sublinhando que esta área continua a ser vista como uma mera formalidade administrativa — algo que quer inverter.
“Estado exige ao privado o que não cumpre”
Uma das críticas mais fortes da nova associação é dirigida ao setor público. Segundo Mário Freitas, o Estado não cumpre aquilo que impõe às empresas privadas, criando desigualdades evidentes.
“Uma escola pública com 500 trabalhadores pode não ter serviços organizados de saúde no trabalho, enquanto um colégio privado com 50 é obrigado a ter”, denunciou.
A associação alerta ainda para a realidade das microempresas, que representam grande parte do tecido económico nacional e onde, muitas vezes, os trabalhadores não têm acesso a serviços de saúde ocupacional, perdendo direitos fundamentais.
Diagnóstico precoce ainda é visto como problema
Outro dos pontos críticos passa pela perceção errada de muitas entidades empregadoras. O diagnóstico de doenças profissionais continua a ser visto como um problema e não como uma oportunidade de prevenção, o que limita a intervenção médica.
“A deteção precoce permite agir e evitar que a doença se agrave ou se propague a outros trabalhadores”, explica o presidente da ANaMeT.
Concursos públicos sob escrutínio
A associação denuncia também práticas nos concursos públicos, onde entidades chegam a definir exames médicos sem critério clínico, contrariando a legislação em vigor.
“Cada local de trabalho é diferente. Não pode haver soluções iguais para realidades distintas”, defende.
Congresso nacional e aposta na formação
No imediato, a ANaMeT prepara um plano ambicioso: organizar o primeiro congresso nacional, lançar webinars e promover formação contínua numa área em rápida transformação.
As novas formas de trabalho — como o teletrabalho — e desafios emergentes, como as alterações climáticas e a saúde mental, estarão no centro da agenda.
“Medicina do trabalho sem médicos do trabalho não existe. Queremos ser ouvidos”, reforça Mário Freitas.
Uma associação que nasce por necessidade
A criação da ANaMeT não é vista como simbólica, mas sim como um sinal claro de que algo falha no sistema.
“Se surge agora esta associação, é porque havia necessidade. Fala-se muito de medicina do trabalho, mas raramente se ouvem os médicos”, conclui.




