Eva, Diogo e Ariana foram três nomes que dominaram as conversas na semana passada em todo o país, enquanto concorrentes do reality show Secret Story, com um enredo amoroso que prendeu, durante 48 horas, os portugueses — mas que levantou quase tantas críticas quanto paixões. A
inda assim, fica a pergunta: porque nos choca a fotografia da sociedade atual dos reality shows?
Recuemos no tempo: primeiro Big Brother, ano 2000.
O primeiro Big Brother não foi apenas um programa de televisão — foi uma viragem na sociedade portuguesa. O português comum percebeu que tinha uma via para a fama sem precisar de possuir uma qualidade ou talento em especial. Não precisava de ser político, atleta, cantor ou semelhante. Mas foi também uma das primeiras vezes em que o país real olhou para a sua própria fotografia social — e foi evidente a reação conservadora a essa imagem que já não correspondia ao que pensava ser.
Da estupefação com a Riquita — esposa e mãe que deixou os filhos em casa — à Sónia, que admitiu a sua bissexualidade em direto, passando pelas reações ao pontapé de Marco após um insulto, tudo ficou gravado na memória coletiva. Mais do que o momento, ficou a desculpabilização pública da agressão, a hesitação da TVI em expulsar o concorrente e a normalização de comportamentos que hoje seriam, de imediato, condenados.
Era um Portugal ainda patriarcal e conservador, que via — e muitas vezes desculpava — a violência doméstica como algo normal. Um país que ficou chocado ao perceber que a sua “fotografia” já não correspondia à realidade. Tudo em direto, sem filtros, diante de uma geração que exigia mais liberdade.
E essa geração trouxe mudanças. Ganhos nas liberdades, novas formas de pensar, novas exigências sociais. O reality show funcionou, nesse contexto, como uma antecâmara do futuro.
Mas essa capacidade de os reality shows exporem a sociedade manteve-se até hoje.
Ao olhar para edições com 10 ou 15 anos, percebemos que os sinais já lá estavam: relações vistas como propriedade, papéis de género rígidos e a violência ainda como recurso. Discussões, manipulações e jogos psicológicos tóxicos eram consumidos como entretenimento. Essa geração está agora a chegar a posições de decisão — e por isso não surpreende o avanço de um novo conservadorismo.
Nas últimas edições da Casa dos Segredos, houve algo que chocou parte do país: a utilização da intimidade como estratégia de jogo.
Um casal jovem, informado e consciente expôs a sua relação, eliminou limites e instrumentalizou sentimentos perante milhões — tudo por um prémio monetário. Iludiu, manipulou e jogou. E isso chocou. Mas, mais uma vez, foi apenas o país a olhar para a sua própria fotografia.
Mas será que devíamos ficar tão chocados?
Estamos perante uma geração criada nas redes sociais, moldada por algoritmos, influenciada por youtubers de lifestyle e falsos gurus financeiros. Uma geração alimentada por ideias de sucesso rápido, riqueza instantânea e validação constante. Onde o fim — o sucesso — justifica quase todos os meios.
Neste contexto, usar a intimidade como ferramenta deixa de ser exceção. Passa a ser consequência.
O verdadeiro problema não é o reality show.
O problema é que esta geração — cuja imagem hoje nos choca num programa de televisão — será amanhã responsável por decisões, lideranças e caminhos coletivos.
E isso, mais do que chocar, deve preocupar.
Porque o que vemos hoje pode ser apenas um ensaio do que aí vem.
E esses não serão bons episódios.




