Estudo pioneiro da ULS Barcelos/Esposende e da Universidade do Porto revela impacto da natureza nos jovens; visitas diárias ao rio ou à praia (espaços azuis) disparam 22% em jovens que já se sentem sós
A Unidade de Saúde Pública da ULS Barcelos/Esposende, em parceria com investigadores da Universidade do Porto, apresentou os resultados de um estudo científico inovador na European Healthy Cities Conference 2026, uma prestigiada conferência internacional que decorre em Viana do Castelo. A investigação debruçou-se sobre a correlação direta entre o contacto com a natureza — dividida entre espaços verdes (parques, jardins, florestas) e espaços azuis (rios, praias, zonas ribeirinhas) — e o sentimento de solidão na adolescência.
O estudo epidemiológico e comportamental envolveu uma amostra robusta de 694 estudantes do 9.º ao 12.º ano de escolaridade, residentes nos concelhos de Barcelos e de Esposende, fornecendo dados cruciais para desenhar futuras políticas de saúde mental e ordenamento do território na região.
Espaços verdes reduzem solidão; proximidade de 10 minutos é crítica
Os dados recolhidos confirmam o papel terapêutico e socializador da mancha verde urbana. Os adolescentes que utilizam com frequência os parques e jardins públicos registam uma redução média de 12% nos níveis de solidão. O impacto é ainda mais expressivo dentro do próprio ambiente escolar: os alunos que consideram que o recreio e as áreas verdes da sua escola têm “boa ou muito boa qualidade” apresentam níveis de solidão 24% inferiores aos restantes colegas.
No entanto, o estudo detetou uma barreira urbanística clara: viver a mais de 10 minutos a pé de um parque público reduz drasticamente a frequência das visitas por parte dos jovens. O dado deixa um aviso claro aos planeadores urbanos sobre a necessidade de descentralizar e aproximar os espaços de lazer das zonas residenciais.
O paradoxo dos espaços azuis: O refúgio dos jovens isolados
Um dos dados mais surpreendentes da investigação prende-se com o impacto dos chamados “espaços azuis” (como as praias de Esposende ou as margens do rio Cávado). Ao contrário dos jardins, a visita diária a zonas ribeirinhas ou praias associou-se a níveis de solidão 22% mais elevados.
Os investigadores rejeitam a ideia de que a água cause isolamento. Pelo contrário, a equipa avança com uma sólida hipótese psicossocial: os adolescentes que já se encontram numa situação prévia de sofrimento ou solidão procuram intencionalmente estes locais. O mar e o rio funcionam como cenários de conforto, introspeção, tranquilidade e regulação emocional autónoma. Esta tese ganhou força ao constatar-se que os jovens que vivem geograficamente mais longe da costa ou do rio são, curiosamente, os que se deslocam lá com maior frequência quando em isolamento.
Escolas de Barcelos e Esposende vão “renaturalizar” os recreios
Para passar a ciência à prática, a ULS Barcelos/Esposende já estabeleceu parcerias formais com as autarquias e agrupamentos de escolas locais para avançar com um plano integrado de renaturalização dos recreios escolares.
O projeto inovador vai envolver os próprios estudantes na conceção e plantação das novas áreas verdes das escolas. O objetivo é transformar o tradicional “recreio de cimento” em ecossistemas dinâmicos que fomentem o convívio saudável, atenuem o isolamento social crónico dos adolescentes e promovam o bem-estar psicológico em pleno espaço escolar.







