Cinquenta anos depois do atentado que matou o padre Max e a estudante Maria de Lurdes, a memória voltou às ruas de Vila Real com uma mensagem direta: lembrar o passado é também um alerta para o presente.
A evocação reuniu antigos membros da UDP, amigos, ex-alunos e familiares junto ao cemitério de Santa Iria. No local, uma faixa sintetizava o tom da homenagem: “Lembrar Max e Lurdes é defender a Constituição”.
A cerimónia coincidiu com as comemorações dos 50 anos da Constituição da República Portuguesa, mas o foco esteve na história ainda por resolver de um dos crimes políticos mais marcantes do pós-25 de Abril.
Maximino Barbosa de Sousa, conhecido como padre Max, tinha 33 anos. Maria de Lurdes Correia tinha 19. Ambos morreram a 2 de abril de 1976, quando o carro em que seguiam explodiu na Cumieira, em Santa Marta de Penaguião.
O atentado foi atribuído ao grupo de extrema-direita MDLP, mas nunca houve condenações, apesar de vários processos judiciais.

José Castro, da UDP, sublinhou o simbolismo da data e o impacto político da homenagem. “Há um chamamento à atualidade”, afirmou, apontando para o crescimento de discursos de ódio e para o reaparecimento de forças de extrema-direita.
Também presente, Duarte de Sousa, irmão do padre Max, deixou um testemunho pessoal e direto. Recordou um homem “íntegro”, dedicado aos outros e com forte ligação às causas sociais, sobretudo na alfabetização num país que, na altura, tinha níveis elevados de analfabetismo.
Esse trabalho junto das populações e o envolvimento político — era candidato independente nas listas da UDP — são apontados como fatores que o tornaram alvo num período de forte tensão política.
Apesar de, em 1999, o Tribunal de Vila Real ter reconhecido a responsabilidade do MDLP, os arguidos foram absolvidos por falta de provas.
Meio século depois, o caso continua sem justiça plena
A homenagem incluiu romagens ao cemitério e uma sessão evocativa marcada para a noite. Para muitos dos presentes, não se trata apenas de recordar, mas de manter viva uma luta que consideram inacabada.
A mensagem é clara: o passado não está encerrado — e continua a ser usado como referência para interpretar o presente político em Portugal.




